Vender energia solar à rede em Portugal: Guia 2025

Receber 4 cêntimos por cada kWh que vende à rede, quando paga 22 cêntimos para o comprar, pode parecer um mau negócio. E, na maioria dos casos, é mesmo. Este guia explica porquê e como navegar o processo.

Markus Weber

Markus Weber

Consultor Energético & Especialista Solar Certificado

Markus Weber trabalha como consultor energético e técnico solar desde 2012. Nos últimos 5 anos instalou mais de 50 sistemas solares no Sul da Europa.

Certificado TÜV 5+ Anos Experiência 50+ Instalações

Receber 4 cêntimos por cada kWh que vende à rede, quando paga 22 cêntimos para o comprar, pode parecer um mau negócio à primeira vista. A verdade é que, para a esmagadora maioria das famílias portuguesas, a venda de excedentes de energia solar não é a mina de ouro que alguns instaladores prometem. O sistema foi desenhado para incentivar o autoconsumo, ou seja, para que você consuma a sua própria energia, e não para o transformar num microbarão da eletricidade. Entender esta premissa é o primeiro e mais importante passo antes de mergulhar na burocracia de um contrato de venda.

A decisão de injetar o excesso na rede pública (RESP) em vez de o armazenar numa bateria ou simplesmente o "perder" é puramente financeira e depende do seu perfil de consumo. Se a sua casa está vazia durante as horas de maior produção solar – tipicamente entre as 11h e as 16h – então sim, a venda pode fazer algum sentido para mitigar o desperdício. No entanto, o verdadeiro ganho económico está em cada kWh que você deixa de comprar à rede, não em cada kWh que consegue vender a um preço residual. Este valor de venda baixo está indexado ao preço do mercado grossista (OMIE), que não inclui taxas, impostos e custos de rede que inflam o preço que você paga como consumidor final.

Vender ou não vender à rede? A matemática que ninguém lhe conta

A questão central não é "como vender?", mas sim "vale a pena?". Vamos a contas diretas. Um sistema típico de 800W, bem orientado a sul em Lisboa, pode gerar cerca de 800 kWh por ano. Sem uma bateria, a sua taxa de autoconsumo – a energia que você consome instantaneamente – raramente ultrapassa os 30-40%. Isto significa que cerca de 520 kWh seriam injetados na rede. A um preço médio de 0,04 €/kWh, isto representa um rendimento anual de apenas 20,80 €. É um valor quase simbólico.

Agora, comparemos com a alternativa: uma bateria de pequena capacidade (1-2 kWh) que armazena essa energia para ser usada ao final da tarde e à noite. Esses mesmos 520 kWh, se usados para substituir a compra de energia da rede a 0,22 €/kWh, representam uma poupança de 114,40 €. A bateria tem um custo inicial, claro (entre 800 a 1.500 €), mas a matemática favorece claramente o armazenamento em vez da venda. A venda só se torna marginalmente interessante em sistemas muito maiores, onde a produção excedentária é tão grande que ultrapassa a capacidade de armazenamento ou o consumo noturno.

Para a maioria das habitações, a recomendação é clara: priorize o autoconsumo. Ajuste os seus hábitos, ligue a máquina de lavar roupa ou a da loiça durante o dia. Se isso não for possível, invista numa bateria. O contrato de venda deve ser visto como a última opção, uma forma de rentabilizar um desperdício inevitável, e não como um pilar do seu investimento.

O labirinto da DGEG e Finanças: um guia passo-a-passo

Decidiu avançar com a venda? Prepare-se para um percurso burocrático com duas paragens obrigatórias: a Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) e a Autoridade Tributária (AT). Qualquer sistema com injeção na rede, independentemente da potência, exige registo obrigatório na plataforma SERUP da DGEG. Acabou o mito de que as pequenas instalações estão isentas de tudo; se há injeção, há registo.

Para potências até 30 kW, o processo é uma Mera Comunicação Prévia (MCP). O seu instalador certificado deve tratar disto. Após o registo, é criada uma Unidade de Produção para Autoconsumo (UPAC). O segundo passo, e o mais ignorado, é a fiscalidade. Para poder faturar a energia vendida, tem de abrir atividade nas Finanças como trabalhador independente. O código de atividade económica (CAE) correto é o 35123 - Produção de eletricidade de origem solar. Não se assuste, a maioria dos comercializadores de energia opera em regime de "autofaturação", o que significa que eles emitem a fatura em seu nome, simplificando o processo. Se o seu rendimento anual com esta atividade não ultrapassar os 13.500 € (valor de referência para 2025), fica isento de IVA ao abrigo do artigo 53º do CIVA.

Equipamento necessário: mais do que apenas painéis solares

Para vender energia, não basta ter painéis no telhado. O elemento central e não negociável é o contador de eletricidade. Ele tem de ser bidirecional e inteligente ("smart meter"). Este equipamento, instalado pela E-Redes, é o único capaz de medir separadamente a energia que entra da rede e a energia que sai da sua casa. Sem ele, a venda é tecnicamente impossível. Se ainda tem um contador antigo, a sua substituição será o primeiro passo após o registo na DGEG.

O seu inversor também desempenha um papel fundamental. Os inversores modernos podem ser configurados para limitar ou bloquear totalmente a injeção na rede ("zero injection"). Esta é uma funcionalidade crucial para quem quer evitar a burocracia da venda e apenas focar-se no autoconsumo, garantindo que nenhum excedente "escapa" para a rede. Se o seu objetivo é vender, certifique-se de que o instalador configura o inversor para permitir a injeção e que todo o sistema está em conformidade com as normas técnicas exigidas pela E-Redes.

A escolha dos painéis em 2025: vale a pena pagar mais pela eficiência?

O mercado de painéis fotovoltaicos em 2025 é dominado por tecnologias de alta eficiência, como ABC e HJT, que ultrapassam os 23-24%. A questão para si é se o custo extra se justifica. A resposta depende do espaço que tem disponível no seu telhado. Se a área é limitada, investir em painéis mais eficientes permite-lhe maximizar a produção por metro quadrado. Se tem um telhado vasto, pode obter a mesma potência total com painéis ligeiramente menos eficientes, mas mais baratos, poupando no investimento inicial.

Marcas como a Aiko e a Maxeon (SunPower) lideram em eficiência, mas vêm com um preço "premium". A garantia de 40 anos da Maxeon é impressionante, mas é uma aposta na longevidade da empresa. Por outro lado, fabricantes como a Longi oferecem um equilíbrio fantástico entre performance e custo, sendo muitas vezes a escolha mais racional para a maioria das instalações residenciais. Não se deixe obcecar apenas pela percentagem de eficiência; analise o custo por watt e o historial da marca.

Modelo e Fabricante (2025) Tecnologia Potência Eficiência Ideal Para
Aiko Comet 2U ABC (All Back Contact) 670 W 24,8% Telhados pequenos onde cada cm² conta. Máxima produção em espaço limitado.
Maxeon 7 (SunPower) IBC (Back Contact) 445 W 24,1% Quem procura a máxima durabilidade e garantia (40 anos). Custo mais elevado.
Longi Hi-MO X6 HPBC (Hybrid Back Contact) 600 W 23,2% O melhor equilíbrio entre preço, performance e fiabilidade. A escolha racional.
Huasun Himalaya G12 HJT (Heterojunction) 720 W 23,18% Grandes telhados e instalações comerciais. Potência bruta máxima por painel.

Custos reais, retorno e as armadilhas a evitar

Um sistema de autoconsumo de 3 kWp, a dimensão mais comum para uma família de quatro pessoas, representa um investimento "chave-na-mão" que, em 2025, ronda os 3.500€ a 4.500€, já com o IVA a 23% (a taxa reduzida de 6% terminou em meados de 2024). Adicionar uma bateria de 5 kWh pode levar o investimento para a casa dos 6.000€ a 8.000€. Com uma produção anual média de 4.600 kWh e uma taxa de autoconsumo otimizada por uma bateria (cerca de 80%), a poupança anual pode chegar aos 800€, resultando num retorno do investimento entre 7 a 9 anos.

A maior armadilha é confiar em cálculos de retorno excessivamente otimistas. Desconfie de quem lhe promete um retorno em 3 ou 4 anos para um sistema com bateria. Esses cálculos muitas vezes ignoram a degradação natural dos painéis (cerca de 0,5% ao ano) e assumem um preço de eletricidade sempre em alta. Outro erro comum é não verificar se o serviço de instalação inclui o tratamento de toda a burocracia na DGEG e o apoio com as Finanças. Certifique-se de que tudo fica explícito no contrato para não ter surpresas dispendiosas mais tarde.

O futuro do autoconsumo: baterias, comunidades de energia e o fim do veto dos condomínios

O caminho para o futuro do autoconsumo em Portugal é claro e passa menos pela venda individual e mais pela gestão inteligente da energia. A descida contínua do preço das baterias de lítio (LFP) irá torná-las um componente padrão em quase todas as novas instalações residenciais nos próximos dois a três anos, tornando a discussão sobre a venda de excedentes ainda menos relevante para o consumidor comum.

Em paralelo, observe o crescimento das Comunidades de Energia Renovável (CER), que permitem que vizinhos partilhem e transacionem energia entre si a preços mais justos do que os oferecidos pela rede. Finalmente, uma das maiores barreiras está prestes a cair: a legislação proposta para 2025 visa eliminar o poder de veto dos condomínios na instalação de painéis, desde que sejam cumpridos os requisitos técnicos e de segurança. Esta mudança poderá desbloquear o enorme potencial dos telhados em edifícios multifamiliares, democratizando ainda mais o acesso à energia solar.

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Perguntas Frequentes

Contrato venda energia custos Portugal

Em 2025, os custos principais envolvem a taxa de gestão cobrada pelos comercializadores (aprox. 10% a 25% sobre o preço OMIE) e potenciais impostos se ultrapassar os limites de isenção. O registo na DGEG para pequenas unidades (até 30 kW) é gratuito, e a substituição do contador pela E-Redes geralmente não tem custo direto para o consumidor.

Como vender eletricidade para a rede?

O processo exige três passos principais: 1) Registar a UPAC (Unidade de Produção para Autoconsumo) no portal da DGEG; 2) Aguardar que a E-Redes instale o contador bidirecional e atribua um CPE de Produção; 3) Celebrar um contrato de venda com um comercializador (ex: EDP, SU, E-Redes) e abrir atividade nas Finanças.

Como vender eletricidade a EDP?

Deve aderir ao plano 'Venda de Excedentes' da EDP Comercial, que normalmente exige que já seja cliente de consumo da empresa. O pagamento é realizado por transferência bancária ou crédito na fatura, com o preço indexado ao mercado OMIE menos uma taxa de gestão (aprox. 20-25%).

Qual o CAE para venda de energia solar?

A partir de 1 de janeiro de 2025, o código correto é o CAE 35123 (Produção de eletricidade de origem solar), que substituiu o anterior CAE 35113 para esta atividade específica. Deve abrir atividade nas Finanças com este código ou o código CIRS 1519.

Qual é o fornecedor de luz mais barato em Portugal?

No início de 2025, a EDP Comercial (tarifários digitais/promoções de campanha) e a Goldenergy (parceria ACP) disputam a posição de fornecedor mais barato. A EDP tem apresentado tarifas competitivas na ordem dos 0,1340€ a 0,1424€/kWh em campanhas específicas.

Qual é a empresa de luz mais barata em Portugal em 2025?

A EDP Comercial destaca-se com o tarifário 'E-Digital' e campanhas de descontos (DD+FE), oferecendo custos mensais médios inferiores aos da concorrência direta e do mercado regulado. A Goldenergy e a Coopérnico também apresentam ofertas muito competitivas no top 3.

Qual é o mais barato, Endesa ou EDP?

Comparando as tarifas base de 2025, a EDP Comercial apresenta-se geralmente mais barata (estimativa mensal de ~69,80€ para família média) do que a Endesa (estimativa mensal de ~75-78€). A EDP tem aplicado reduções na componente de energia que a tornam mais competitiva.

Quanto custa 1 kW de luz na EDP?

O preço da energia (kWh) na EDP Comercial em 2025 varia entre 0,1340€ (campanhas) e 0,1675€ (tarifa base). O custo da potência contratada (termo fixo, por vezes referido como 'o kW') é de aproximadamente 0,2321€/dia para 3.45 kVA ou 0,4641€/dia para 6.9 kVA.

Qual é a diferença entre EDP e SU Eletricidade?

A SU Eletricidade opera no mercado regulado com preços fixados anualmente pela ERSE, enquanto a EDP Comercial opera no mercado livre com preços definidos pela própria empresa. Em 2025, a EDP Comercial tem praticado preços finais inferiores aos da SU Eletricidade.

Qual é o preço do kWh na SU Eletricidade?

Para 2025, o preço do kWh na tarifa simples da SU Eletricidade (Mercado Regulado) é de 0,1658€/kWh. Na tarifa bi-horária, o preço varia entre horas de vazio (mais barato) e fora de vazio.

É preciso abrir atividade nas Finanças para vender excedente?

Sim, é obrigatório abrir atividade nas Finanças (Autoridade Tributária) antes de começar a faturar, mesmo que estime vender pouco. Pode beneficiar do regime de isenção de IVA (art. 53.º) se a faturação anual for inferior a 14.500€.

Quais são os limites de isenção de IRS na venda de energia?

Os rendimentos da venda de excedente de energia (Categoria B) estão isentos de tributação em IRS até ao limite anual de 1.000€, desde que a unidade de produção não ultrapasse 1 MW de potência instalada.

O que é o mecanismo de compensação de excedentes?

Alguns comercializadores oferecem uma 'bateria virtual' ou saldo em carteira, onde o valor do excedente vendido é acumulado para abater em faturas futuras de consumo, em vez de ser transferido para a conta bancária do produtor.

Qual a potência máxima para venda de excedente sem licença de produção?

Unidades de Produção para Autoconsumo (UPAC) com potência instalada até 30 kW requerem apenas uma comunicação prévia/registo na DGEG. Acima de 30 kW, o processo de licenciamento torna-se mais complexo e exige certificado de exploração.

Posso vender energia a uma empresa diferente da que me fornece eletricidade?

Embora legalmente possível, na prática, a maioria dos comercializadores do mercado livre exige que seja cliente de consumo (compra) para aceitarem celebrar o contrato de compra do seu excedente (venda).

Os subsídios do Fundo Ambiental para painéis solares mantêm-se em 2025?

O Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis tem tido edições anuais; recomenda-se consultar o site oficial do Fundo Ambiental para verificar a abertura de novos avisos e dotações orçamentais específicas para 2025.

O que é o preço indexado OMIE na venda de energia?

A maioria dos contratos de venda de excedente paga ao produtor o valor horário do mercado grossista ibérico (OMIE). Isto significa que o preço de venda varia hora a hora: se o preço de mercado for 0€ (comum em horas de muito sol), recebe 0€ nesse período.

Quanto custa instalar um contador bidirecional?

Para instalações de autoconsumo em Baixa Tensão Normal (BTN), a substituição do contador antigo por um contador inteligente bidirecional é da responsabilidade da E-Redes e, por norma, não tem custos diretos para o consumidor após o registo da UPAC.

Vale a pena investir em baterias físicas para não vender à rede?

Com os preços de venda de excedente baixos (por vezes perto de zero nas horas de sol), o investimento em baterias torna-se mais atrativo em 2025 para maximizar o autoconsumo e evitar comprar energia cara à noite, embora o retorno do investimento deva ser calculado caso a caso.

Quais os documentos necessários para o contrato de venda?

Normalmente são exigidos: comprovativo de registo da UPAC na DGEG, comprovativo de NIB/IBAN, comprovativo de abertura de atividade nas Finanças (com CAE 35123) e identificação do titular do contrato.