Se instalou painéis solares, provavelmente já se deparou com a dura realidade: a energia que injeta na rede vale uma fração do que paga pela que consome. A conta é simples e algo desanimadora. Você paga cerca de 0,23€ por cada quilowatt-hora (kWh) que compra à noite, mas quando os seus painéis estão no auge da produção e geram um excedente, as empresas propõem-se a comprá-lo por valores que, por vezes, nem chegam aos 0,04€/kWh. Esta diferença abismal é o ponto de partida para entender o mercado de comercialização de excedentes em Portugal e tomar decisões inteligentes.
A verdade é que o sistema não foi desenhado para o transformar num pequeno barão da energia. A venda do excedente é, antes de mais, um mecanismo para evitar o desperdício e cumprir uma formalidade legal. A sua Unidade de Produção para Autoconsumo (UPAC) está ligada à rede pública e, por lei (Decreto-Lei 15/2022), qualquer injeção de energia tem de ser enquadrada por um contrato. É aqui que entra o "comercializador de energia excedente", uma entidade, que pode ou não ser a mesma que lhe vende eletricidade, registada na Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) para comprar esta pequena produção.
Quem compra e a que preço? O cenário real em Portugal
O mercado divide-se em dois tipos de atores: os grandes comercializadores tradicionais (EDP, Galp, Endesa) e os chamados agregadores, muitas vezes cooperativas ou empresas mais pequenas focadas nas renováveis. Os grandes nomes são, por norma, pouco transparentes. As suas ofertas raramente são públicas e tendem a ser as mais baixas. Dados de mercado indicam que a EDP Comercial oferece valores na ordem dos 0,034€/kWh, um valor que reflete o preço do mercado grossista (OMIE) com uma margem de segurança e lucro considerável para a empresa.
Os agregadores, por outro lado, costumam ter um modelo mais transparente. Em vez de uma tarifa fixa baixa, propõem comprar a sua energia com base no preço do OMIE, deduzindo uma percentagem para os seus custos operacionais (tipicamente entre 15% e 25%). Isto significa que o valor que recebe flutua com o mercado. Num dia de muito sol e vento na Península Ibérica, o preço pode cair a pique, mas em dias de alta procura, poderá receber um valor mais justo. A escolha depende do seu perfil: prefere a (baixa) segurança de um valor fixo ou a variabilidade de um modelo indexado ao mercado?
A burocracia para legalizar a venda do seu excedente
Antes de poder vender um único watt, há um percurso administrativo a percorrer. Se o seu sistema tem a intenção de injetar na rede – independentemente da potência – o registo é obrigatório. O primeiro passo é a comunicação prévia da sua UPAC na plataforma SERUP da DGEG. Este passo é fundamental e serve para informar o sistema elétrico nacional da existência da sua pequena central produtora.
Após o registo, a E-Redes, que gere a rede de distribuição, entra em cena. É necessário ter um contador inteligente e bidirecional, capaz de medir tanto a energia que consome como a que injeta. Se o seu contador for antigo, a E-Redes procederá à sua substituição. Sem este equipamento, toda a energia que injetar na rede é, na prática, uma doação não contabilizada. Só depois de ter o contador adequado e o registo na DGEG concluído é que pode assinar um contrato com um comercializador de excedentes. É este comercializador que finalizará o processo, comunicando o contrato à DGEG.
Comparativo de Modelos de Comercialização de Excedentes
Para simplificar a decisão, é útil visualizar as diferenças entre os modelos de compra disponíveis. A falta de transparência das grandes empresas obriga-nos a trabalhar com estimativas baseadas em relatos de utilizadores e práticas de mercado, mas o quadro geral é claro.
| Tipo de Comercializador | Tarifa Estimada (€/kWh) | Modelo de Preço | Transparência | Vantagem Principal |
|---|---|---|---|---|
| Grandes Comercializadores (Ex: EDP) | 0,03€ - 0,05€ | Fixo ou Indexado (com baixa transparência) | Baixa | Conveniência (se já for o seu fornecedor) |
| Agregadores / Cooperativas | Variável (OMIE - 15% a 25%) | Indexado ao Mercado Grossista | Elevada | Potencial de tarifas mais justas em picos de mercado |
| Autoconsumo Coletivo | N/A (Partilha) | Acordo entre vizinhos/condóminos | Depende do acordo | Otimização do consumo dentro da comunidade |
Como a tabela sugere, não existe uma solução perfeita. Os grandes comercializadores oferecem um processo integrado, mas pagam pouco. Os agregadores exigem um pouco mais de pesquisa, mas o seu modelo de negócio alinha-se melhor com os interesses do produtor. O autoconsumo coletivo, embora promissor, ainda enfrenta barreiras burocráticas e a necessidade de acordo entre vizinhos, sendo uma realidade mais complexa de implementar.
A alternativa mais rentável: Armazenar em vez de vender
Chegamos ao ponto crucial que muitos instaladores e comercializadores não enfatizam. Vender o seu excedente a 0,04€/kWh quando paga 0,23€/kWh pela energia da rede é, financeiramente, um mau negócio. A estratégia mais inteligente não é otimizar a venda, mas sim minimizar a compra. É aqui que as baterias de armazenamento entram na equação.
Vamos às contas. Cada kWh de energia solar que você produz e não consome de imediato tem dois destinos possíveis: ser vendido por 0,04€ ou ser armazenado numa bateria para ser usado à noite. Ao usá-lo à noite, está a evitar comprar um kWh da rede, o que representa uma poupança líquida de 0,23€. A diferença é brutal: armazenar a sua própria energia é, em média, cinco vezes mais rentável do que vendê-la. Uma bateria de capacidade média pode custar entre 800€ e 1.500€, o que aumenta o investimento inicial.
No entanto, este investimento adicional eleva drasticamente a sua taxa de autoconsumo. Um sistema solar sem bateria aproveita tipicamente 30% a 40% da energia produzida. O resto é injetado. Com uma bateria, essa taxa pode saltar para 70% ou mesmo 90%. O período de retorno do seu investimento total pode aumentar um ou dois anos, mas a sua fatura de eletricidade mensal cairá para valores residuais, protegendo-o da volatilidade dos preços da energia a longo prazo.
Decisão final: qual o caminho a seguir?
A escolha de um comercializador de excedentes é uma necessidade legal se quiser injetar na rede, mas não deve ser o foco da sua estratégia de otimização. A prioridade número um deve ser sempre maximizar o autoconsumo. Isto pode ser feito de forma simples, ajustando os seus hábitos – ligar a máquina de lavar loiça ou a bomba da piscina durante as horas de maior produção solar – ou de forma mais eficaz, investindo num sistema de armazenamento.
Se, mesmo assim, tiver um excedente considerável e a bateria não for uma opção no imediato, opte por um agregador com um modelo transparente indexado ao OMIE. Pelo menos saberá que está a receber um preço justo de acordo com as condições de mercado, em vez de uma tarifa fixa calculada para maximizar o lucro do comprador.
Encare a venda de excedentes como uma pequena compensação pelo que não consegue mesmo aproveitar, e não como uma fonte de rendimento. O verdadeiro poder dos seus painéis solares não está no que vende, mas sim em cada quilowatt-hora que deixa de comprar à rede. É essa a verdadeira independência energética.
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